Vem de dentro, vem de mim...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

dega...



Às vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, (...).

Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo abaixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.

Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio e paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer.”

Margarida Rebelo Pinto

Também eu preciso tantas vezes de um aparte do mundo, para me pôr à parte de mim mesma… apenas para um simples constatar que no dia em que me encontrar deixarei de ser eu...

Contrariamente ao que devia eu ainda espero aquele corpo por uma noite contra o meu.

Contrariamente ao mais sensato eu ainda creio num amar e partir com aquele ser desprendido...

Isso basta-me.

Porque sou estúpida ao ponto de um "sonhar" meramente carnal dum sonho que para ele não me envolve...

sinto-me

Às vezes tenho a sensação que se daria o mundo se isso apagasse certas lembranças.

Outras vezes caio na aparência de achar o contrário.

Ando assim neste vai vem de ambiguidades do quanto de bom e de mau vai enclausurado na prisão do pensamento.

Debaixo desta carapaça esconde-se um turbilhão exaustivo de arquivos adormecidos que vão desfalecendo continuamente…

E tenho medo.

Medo de perder a capacidade de sentir aqueles braços profundos que ainda hoje me apertam quando fecho os olhos e retrocedo memórias.

Medo de deixar de ver aqueles momentos tatuados no pretérito.

Medo de esquecer o sabor daquele beijo que o tempo disfarçadamente insiste em apagar de mim.

É uma luta.

Constante.

Uma apatia vital para as coisas que povoam a estrada onde passamos a passos largos e ofegantes sem espaço para tomar fôlego.

Quer-se sempre tudo de uma vez, da forma mais veloz possível num ansiar de agora e não de depois.

São lembranças e memórias e pedaços… são estranhos e conhecidos alinhavados na prepotência impingida no papel esquecido de uma mente que nada mais tem como certo que a incerteza.



Ignorar é sempre mais fácil que assumir o que nos dói.

Imaginar o nosso mundo á parte, onde não entra ninguém que não queremos, onde não sentimos e recusamos assumir torna-se um ponto mais aceitável que adormecer e acordar com aquela pessoa no pensamento baseando-nos numa suposição do que seria “se”…

Uma tentação de pressuposta ocasião que rodopia num vale de imaginação que á força de tanto se querer quase toca a realidade.

Mas não toca.

Não existe sequer.

Ama-se tanto e tão pouco que nos esmagamos contra a fúria de um coração partido por que assim tem de ser.

Destino traçado de quem não o admite.

Fingir ocupado de quem pensa que o mundo gira à sua volta e acorda na esperança de um pouco mais de sorte ou tão-somente um pouco mais de paz de espírito.

Capacidade oca para receber o que a vida dá mas que fecha as portas e janelas do coração só porque os sonhos assentam na perfeição e não na casualidade banal que nos se depara a cada dia.


te dedico"dega"