
Zero.
Começar do zero.
Desligar e deixar que o sistema limpe.
Respirar fundo.
Respirar outra vez.
Reiniciar e esperar nascer de novo, munida agora de escudos e espadas. Nascer mais longe mesmo quando estiveres perto. Fingir não perder a compostura quando os teus dedos, desejosos e apressados, se perderem no meu corpo. Dividir as emoções em pastas distintas e ocultar aquelas que não me permito a ter contigo. Pegar nas vontades e comprimi-las, avaliar e decidir que a reciclagem está a precisar de visitas. Impedir que corrijas os erros que, em demasia, vejo acusar no ecrã. Dizer-te, no meu orgulho quase divertido que sou autónoma osuficiente para saber cuidar de mim. Hibernar quando os teus olhos se turvarem num nevoeiro cansado, cerrado, prenúncio da tua ida tão certa. Escurecer, exausta das lutas que em mim acontecem sem que eu disso tenha consciência ou mão. Resignar-me à natureza que me escolheu e que, fatalmente, me afasta de ti.
Entro num estado de sonolência premeditado. Transe com razão predefinida. Programo-me para sonhar contigo e sem problemas assim acontece. Sonho com os teus traços bem delineados e olhos imitando botões de rosa. Não me gozes se alguma vez te associar a rosas; a comparação é inevitável. Embora o meu apreço por elas não seja significativo, são o reflexo espelhado da tua alma. Aroma inconfundível. De vermelho bruto. Tal e qual os restos de coração que me concedeste.
Olhos e coração
E quando todos os dias me amavas, quando todos os dias me amavas para os olhos dos outros, quando todos os dias me amavas para o exterior; amavas "a outra" para o teu coração, apenas para ti, para o teu íntimo?! Amavas-me no teu esconderijo mais exposto, e "a outra" amavas para no externo secretamente?!
Mas qual de nós tu escondias e qual de nós tu amavas, se passeavas (com) cada uma na sua aldeia: os teus olhos e o teu coração.
Sabes, afinal tu amavas "a outra" porque no interior está o coração; a mim, amavas só para os olhos dos outros. Esconde-me a mim e mostra "a outra". Talvez assim me possas amar a mim e mostrar "a outra". Porque assim estou resguardada em ti e ela exposta, assim conservas-me e mostras "a outra", assim eu fico com o teu coração e "a outra" fica com os teus olhos.
Mas qual de nós tu escondias e qual de nós tu amavas, se passeavas (com) cada uma na sua aldeia: os teus olhos e o teu coração.
Sabes, afinal tu amavas "a outra" porque no interior está o coração; a mim, amavas só para os olhos dos outros. Esconde-me a mim e mostra "a outra". Talvez assim me possas amar a mim e mostrar "a outra". Porque assim estou resguardada em ti e ela exposta, assim conservas-me e mostras "a outra", assim eu fico com o teu coração e "a outra" fica com os teus olhos.
