Vem de dentro, vem de mim...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pais e Filhos♥

Aqui segue um texto q achei mto bacana...é meio comprido...mas compensa dar uma lidinha...

Aos pais (e filhos tb)


"Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos.

É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e

pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma

estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem

todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.

Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal

maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela

criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não

percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário

com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?

A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência

civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não

apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando

que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre

hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o

uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros. Ali

estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que

conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das

notícias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados,

observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os

erros que esperamos que não repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios

filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.

Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô. Saíram do banco

de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.

Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma

respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os

adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posters, agendas

coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao

Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas,

não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter

comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos,

bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos.

Sim, haviam as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de

chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os

pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a

turma e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre

desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega o

momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa

hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles

acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que a conquistem do modo

mais completo possível. O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar

netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos

próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão

desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última

oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma

coisa a mais, antes que eles cresçam.



Aprendemos a ser filhos depois que somos pais.

Só aprendemos a ser pais

depois que somos avós..."